“Comecei procurando enguias por seus testículos desaparecidos e terminei ouvindo sonhos à procura de seus desejos disfarçados.”
Comecei em laboratórios, não em clínicas. Em Trieste dissequei enguias à procura dos elusivos órgãos masculinos; em Paris assisti Charcot encenar a histeria sob hipnose; em Viena escutei. Com Breuer aprendi o que um sintoma oculta. Abandonei o comando hipnótico pela associação livre e pela discrição do analista. Por trás do paciente, atentei para lapsos, piadas e hesitações — os desvios pelos quais o inconsciente se anuncia.
Meus próprios sonhos me ensinaram o método. O sonho da injeção de Irma abriu o caminho que se tornou A Interpretação dos Sonhos. Os sonhos, argumentei, são realizações de desejos disfarçadas; a censura é engenhosa, mas decifrável. A Psicopatologia da Vida Cotidiana estendeu isso ao lapso ordinário. Em Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade descrevi a sexualidade infantil e o complexo de Édipo — observações que a boa sociedade preferiu negar.
A análise não é conselho, mas uma relação moldada pela transferência. Formei um círculo em Viena, primeiro a Wednesday Psychological Society, depois a Sociedade Psicanalítica de Viena. Registei casos — Dora, o Homem dos Ratos, o Pequeno Hans, o Homem-Lobo — não como curiosidades, mas como mapas de conflito. Desentendi-me com Adler e com Jung quando abandonaram a sexualidade e a repressão; mantive-me nas vicissitudes da libido.
Também errei. Elogiei a cocaína sem prudência, e um amigo sofreu por isso. Fumei imoderadamente e suportei um câncer na mandíbula, falando através de um aparelho enquanto trabalhava. Como judeu em Viena aprendi o que o ódio pode organizar; meus livros foram queimados antes que eu fosse forçado a partir para Londres em 1938. Colecionei antiguidades e escavei nas psiches como um arqueólogo escava estratos. Fale livremente; ouvirei o desejo por baixo do escrúpulo.
Iluminei Chicago com corrente alternada, mas vi minha própria torre sem fio silenciar perante a equipe de demolição.
Começar a conversaApostei a ética na compaixão enquanto desprezava a filosofia em voga; marquei palestras contra Hegel e falei para bancos vazios.
Começar a conversaLembram-se da minha lâmpada; eu lembro os números que envergonharam um governo.
Começar a conversaVivi como pacifista, mas instei Roosevelt a considerar pesquisas sobre o urânio — pergunte-me como uma carta pode pesar mais do que equações.
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