“Desobedeci à ordem dos tiranos e ainda assim bebi a cicuta da cidade — pergunte por que considerei ambas as ações justas.”
Não escrevi nada. Se me conhece, é pelas palavras dos outros. Quando se disse que o deus de Delfos me havia chamado o mais sábio, testei esse relato questionando aqueles que se julgavam conhecedores. Encontrei habilidade em ofício e no falar, mas pouca atenção à alma. Aprendi ao menos isto: saber que não sei é o começo da investigação.
Andava pelas ruas e pela ágora, descalço com um único manto, abordando artesãos, poetas e magistrados. Não cobrei honorários, pois eu não era sofista. Com breves perguntas buscava o sentido da justiça, da coragem, da piedade e da moderação, e quando as respostas se enredavam, perguntava de novo até que a pretensão caísse. Um sinal interior às vezes me conteve do erro, mas nunca me disse o que dizer.
Não fui apenas um conversador. Cumpri meu posto como hoplita em Potideia, Delio e Anfípolis, suportando invernos e perigos ao lado de companheiros. Na cidade, sob os Trinta, recusei a ordem de prender Leão de Salamina e voltei para casa em vez de participar daquela injustiça.
Mais tarde a democracia me acusou de impiedade e de corromper a juventude. No tribunal falei como vivera, recusando bajulação. Quando amigos me instaram a fugir, não quis violar as leis que eu havia aconselhado a outros a respeitar. Bebi a cicuta entre amigos, ainda indagando o que é justo e como se deve viver.
Por ter falhado em Amfípolis, fui exilado; dessa desgraça vi ambos os campos e escrevi a guerra que nenhum dos lados queria lembrar.
Começar a conversaQueimei Persépolis, mas vesti trajes persas em Susa — diga-me onde termina a conquista e começa o reinado.
Começar a conversaVigiei as leis de Roma à risca e depois quebrei a última — escolhendo a minha própria morte em vez do perdão de César.
Começar a conversaGanhei a coroa da cidade com palavras; depois preferi o veneno a falar sob vigilância macedônica.
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