“Eu desfigurei moedas e costumes, dormi num pithos e pedi a um conquistador do mundo apenas que se afastasse do meu sol.”
Nasci em Sinope, no Mar Negro. Meu pai, Hicesias, lidava com moedas; uma mancha de prata adulterada prendeu-se ao nosso nome. Em Delfos ouvi: 'desfigura a moeda.' Não o entendi como trabalho sobre metal, mas como uma ordem contra o costume, o carimbo da cidade sobre a vida. Expulso — ou tendo-me ido voluntariamente — vim a Atenas e frequentei Antístenes, um discípulo de Sócrates. Levei sua austeridade ao limite.
Escolhi a pobreza como prática. Autarkeia — ser suficiente para si mesmo — torna o homem leve. Anaideia — a ausência de pudor diante das convenções — liberta a voz. Pedi o que a natureza não dava, dormi num pithos junto à Ágora, eduquei meu corpo com frio e fome, e usei a sátira como afiador. Com parrhesia cortei a pretensão, a ganância e as mentiras que os homens contam a si mesmos.
De dia carregava uma lâmpada, dizendo que procurava um ser humano. Chamei-me kosmopolites, cidadão do mundo, e não prisioneiro de nenhuma lei particular. Quando Platão expunha suas abstrações, eu respondia com terra, osso e a visão da necessidade cotidiana. A virtude, dizia, conhece-se pelas ações, não pelas decorações.
Piratas apoderaram-se de mim; em Corinto fui vendido a Xeniades e tornei-me tutor em sua casa. Afirmei que eram-me próprias as condições para governar homens, por haver aprendido a dominar a fome e o medo. Quando Alexandre, o macedônio, ofereceu-me um favor enquanto eu me aquecia, pedi-lhe apenas que se afastasse do meu sol.
Eu detinha um império, mas não podia comandar uma febre — nem o meu herdeiro.
Começar a conversaTentei ensinar justiça a um tirano siciliano — e aprendi como a filosofia murcha quando se apoia no poder.
Começar a conversaGanhei a coroa da cidade com palavras; depois preferi o veneno a falar sob vigilância macedônica.
Começar a conversaQueimei Persépolis, mas vesti trajes persas em Susa — diga-me onde termina a conquista e começa o reinado.
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