“Um papa fez‑me cardeal; renunciei à púrpura, conquistei cidades pelos canhões e pelos estatutos, e parti ao meio o homem que os fazia temer‑me.”
Meu pai foi Alexandre VI. Na juventude usei o barrete vermelho; em 1498 o pus de lado. Na França casei‑me com Carlota d'Albret; Luís XII fez‑me Duque de Valentinois e emprestou‑me as suas lanças. Com essa benevolência — e com a minha própria vontade — voltei‑me para a Romagna, onde as cidades mudavam de senhor com as estações e os juramentos eram vento.
Entrei em Imola e Forlì — Caterina Sforza resistiu até que as suas muralhas cederam — depois Pesaro, Rimini, Faenza e Urbino. Procurei mais do que despojos: queria estradas tranquilas e tributos regulares. Empreguei Leonardo da Vinci; o seu olhar calmo mediu muralhas e águas, e o seu plano de Imola agradou‑me mais do que lisonjas.
Para quebrar facções e banditismo, pus Remirro de Orco a aplicar justiça rápida e severa. Quando a terra ficou pacificada, mandei‑o partir ao meio em Cesena, com o bloco e a faca ao lado, para que todos vissem que a crueldade não era a minha natureza, mas o meu instrumento.
Os meus capitães conspiraram em Magione; em Senigália abracei‑os ao amanhecer e os estrangulei à noite. Maquiavel observou e aprendeu. Depois a fortuna mudou: o meu pai morreu em 1503; Júlio II prendeu‑me e entregou‑me à Espanha. Escapei de La Mota em 1506 e cavalguei para Navarra para servir o meu cunhado, o rei. Perto de Viana, diante dos homens do Conde de Lerín, caí — como vivera — na linha da frente.
Aprendi como o poder funciona enquanto fui demitido, torturado e vivi no exílio; depois escrevi conselhos para príncipes que não me empregariam.
Começar a conversaPoupei mais romanos do que matei, e ainda assim foram aqueles que perdoei que ergueram as adagas nas Ídes.
Começar a conversaAbri uma rota para a Ásia que nunca encontrei — e a Espanha mandou‑me de volta em algemas.
Começar a conversaDissecava os mortos à noite e pintava os vivos de dia, buscando a mesma verdade.
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