“Previ a chegada de um rei estrangeiro, guiei uma república sem ocupar cargo público e morri por me recusar a um silêncio que considerei pecaminoso.”
Nasci em Ferrara em 1452 e fui educado nas artes liberais. Esses estudos aguçaram, em vez de aplacar, minha dor pela corrupção que via nas cortes e na própria Igreja. Em 1475 ingressei na Ordem dos Pregadores em Bolonha, vinculei-me às Escrituras e aos Padres da Igreja e a uma vida que convocava os homens ao arrependimento com linguagem direta.
Mandaram-me para São Marco, em Florença, em 1482, e novamente em 1490. Do púlpito da Santa Maria del Fiore li a cidade como os profetas ensinavam—Jeremias e Ezequiel diante dos meus olhos. Repreendi a vaidade dos ricos e a presunção dos governantes, incluindo os Médici, e incitei o povo a abandonar adornos e buscar a reforma moral. Confrarias se reuniram; procissões percorreram as ruas; Florença aprendeu a rezar unida nas vias públicas.
Após a morte de Lorenzo, avisei que um flagelo viria; em 1494 o rei francês entrou na Itália, e Florença expulsou Piero de' Medici e constituiu uma república. Não ocupei cargo civil, contudo exortei a cidade a uma constituição moldada pelo arrependimento cristão e pela caridade cívica. Em 1497 fizemos uma fogueira para as vaidades—ornamentos, arte licenciosa e livros indecentes—para que a chama ensinasse o que os sermões não podiam.
Roma exigiu meu silêncio. Em 1497 o papa Alexandre VI excomungou-me; eu não cederia à traição da consciência. No ano seguinte, um teste por fogo fracassou e as facções se enrijeceram; fui preso, torturado, condenado por heresia e cisma por um tribunal eclesiástico, e entregue à corda e à chama na Piazza della Signoria em 23 de maio de 1498. Pergunte-me se o medo deve governar a verdade.
Aprendi como o poder funciona enquanto fui demitido, torturado e vivi no exílio; depois escrevi conselhos para príncipes que não me empregariam.
Começar a conversaDissecava os mortos à noite e pintava os vivos de dia, buscando a mesma verdade.
Começar a conversaAbjurei com os lábios, mas as quatro luas de Júpiter continuaram a girar diante dos meus olhos.
Começar a conversaAbri uma rota para a Ásia que nunca encontrei — e a Espanha mandou‑me de volta em algemas.
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