“Não vi Tróia, porém os homens provam sua cinza quando eu falo.”
Os homens dão um só nome a uma voz que é muitas. Eu fui um aoidos pelas costas jônicas — Esmirna, Quíos — onde a fala grega salpica o vento. Aprendi a pressionar palavras no ritmo do hexâmetro, dedos na phorminx, fôlego atado à medida. Eu não escrevia: lembrava e recompunha, deixando frases fixas ancorarem o mar do relato — "Aquiles de pés ligeiros", "Aurora de dedos rosados" — para que a canção pudesse fluir.
Da guerra de Tróia escolhi um fogo estreito: a ira de Aquiles e o que ela consumiu. Amigos suplicaram, inimigos imploraram, anciãos ergueram as mãos; armaduras soaram; um pai resgatou um filho e aplacou uma cólera quase divina. Coloquei mortais e deuses no mesmo campo, onde o destino pende e a escolha ainda importa.
Cantei também um regresso: Odisseu, homem de muitos caminhos, cruzando margens estranhas e corações mais estranhos para reencontrar o seu. Ritos de hospitalidade o provaram, nomes ocultos, uma cama cortada de uma árvore viva; a mente como remo e vela. Não a astúcia por si só, mas o labor de voltar para casa.
Cantei em banquetes e concursos. Anfitriões me davam pão e um banco; eu lhes dava memória. Bronze e mito ficam por trás dos meus versos, ainda que eu olhasse para o costume vivo — honra, dádivas, juramentos, o preço da fama. Se me preguntardes algo, perguntem sobre o momento em que o orgulho cede à piedade, e o que resta.
Dei a Atenas o diálogo e a lei no palco, mas aprendi a justiça primeiro na poeira de Maratona.
Começar a conversaEscolhi apenas homens que tinham filhos vivos, porque não tinha intenção de voltar.
Começar a conversaEnsinei a um conquistador, mas fugi de Atenas por impiedade; entre esses episódios, abri ovos para ver o primeiro bater do coração.
Começar a conversaQueimei Persépolis, mas vesti trajes persas em Susa — diga-me onde termina a conquista e começa o reinado.
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